Você existe, ou só funciona?
Nunca vivemos tempos tão subjetivamente competitivos. Estamos profundamente inseridos em uma cultura de trabalho onde somos nossos próprios chefes, nos cobramos e policiamos mais do que qualquer superior, e nos punimos por não estarmos fazendo o suficiente, mesmo que este seja absolutamente abstrato e mude cada vez que sentimos que estamos perto de atingi-lo.
Em "O mito do normal", o médico e pesquisador Gabor Maté nos oferece uma análise acessível, ainda que incômoda, a respeito do conceito de normal, no contexto da saúde humana. Em uma sociedade que funciona em ritmos exaustivos, relações mediadas pela performance e uma dissociação crescente do corpo, das emoções e da comunidade, o sofrimento psíquico tornou-se algo normal, esperado e, pior, subestimado, nos levando a acreditar que não precisamos, ou não devemos, parar para ouvir o que corpo e alma tem a dizer.
Maté defende que, por trás de uma epidemia de doenças crônicas, tanto físicas quanto mentais que marcam nossa época, está uma cultura profundamente adoecida, que nos mantém ignorantes em relação à conexão direta entre nossa saúde e nossa vida socioemocional. Uma doença crônica, seja ela qual for, é em grande medida uma consequência, que reflete um modo de viver. O que Maté chama de cultura tóxica, é todo o contexto de estruturas sociais, sistemas de crença e valores que permeiam os aspectos da nossa vida. Nela, o contexto social e econômico gera fatores de estresse crônico que prejudicam gravemente o bem estar de um cidadão comum. Ou seja, da maioria de nós.
Apesar dos recursos econômicos, da tecnologia que avança na velocidade da luz, e profissionais da saúde altamente competentes, nossa cultura atual leva um número incalculável de seres humanos a padecer de doenças. Estresse que gera dependência de substâncias, desigualdade que nos obriga a (sobre)viver para trabalhar, pobreza que nos expõe a constante escassez, destruição ambiental que nos causa profundo sentimento de impotência, mudanças climáticas que nos roubam a chance de vislumbrar um futuro próspero, e isolamento social, que nos leva a sentir que nessa vida, é cada um por si e ninguém por todos.
Em suma, nossa cultura nega, à maioria de nós, o direito à uma vida digna. E nos faz acreditar que os responsáveis por não ter uma vida próspera e abundante, somos nós mesmos. Nós nos aculturamos a grande parte do que nos aflige, de modo que, algo antes aberrante, se torna comum o suficiente para nos ajustarmos e sobrevivermos ao absurdo.
E não faltam estratégias para que o processo de normalização do sofrimento se consolide. Deixo aqui a sugestão do vídeo Happiness (Felicidade) do brilhante Steve Cutts, autoexplicativo em termos de como se dá a anestesia ao absurdo cotidiano.
De volta a Maté, muito do que se considera normal hoje em dia, na verdade, não é natural ou saudável. Jiddu Krishnamurti, filósofo e escritor indiano nascido no século XX, já dizia em suas palestras que “Não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade profundamente doente”. Essa ideia é aprofundada em outra obra do autor Byung-Chul Han, “Sociedade do Cansaço”, onde ele sugere que vivemos em uma sociedade do desempenho, nos tornamos empreendedores de nós mesmos, e inconscientemente ou não, passamos a explorar nossa própria força de trabalho. O fracasso, portanto, tornou-se nossa própria culpa individual. Na sociedade do desempenho, o cansaço é físico, psíquico, mas também existencial. Assim, não estar ou não ficar doente, é privilégio.
E ainda bem que o nosso corpo e mente respondem a esse cenário. Em forma de sintomas. Eles são alarmes vivos que tentam direcionar a nossa atenção para aquilo que não só não funciona bem em nossa vida, mas em nossa sociedade. Imagine só o que aconteceria se o seu cérebro não emitisse a resposta dor quando você encosta no fogo. Adoecer é quase um ato de rebeldia, diante de uma sociedade que vende o perfume “positividade”. A questão é o que fazemos quando esses sintomas lutam para chamar nossa atenção.
Esse texto não é para acrescentar mais um sintoma na lista dos que já temos que lidar “normalmente”. Assim como Maté também não intencionou mais adoecimento ao escrever o Mito do Normal. Porém, o único modo de tratar de verdade de uma doença, é entender o que a está causando. Como diz o autor, é necessário ultrapassar o senso comum e desfazer os mitos que mantém cristalizada uma narrativa tóxica e aprisionadora a respeito da normalidade. É preciso olhar para o abismo entre nossa essência e o que somos em nome do “normal”, e assim, reimaginar possibilidades de bem estar em estado de conexão com nós mesmos.
Em um mundo onde é cada vez mais difícil imaginar e prospectar sobre o futuro, é questão de sobrevivência não deixar morrer aquilo que preenche os vazios da cultura da performance. Saúde mental vai bem além de ser um ser humano funcional.
Você existe, ou apenas funciona?